domingo, 2 de dezembro de 2012

Verbo Ser

É sol é lua
Verbo Ser no espaço
Verbo Ser entre os astros.

É sol é lua
Madrugada nua
Verbo Ser miniatura
Qual menino de rua
Que caminha, sangra e sua
Na esperança de viver.

Verbo Ser não tem razão
É verbo de ligação
Liga a terra ao céu
E o teu nome ao coração.

Verbo Ser é estrela
Acende a noite dos namorados
E os torna um só entrelaçados
Num céu de gozo e prazeres alados.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Matéria ou um ser que ainda não é

Matéria ou um ser que ainda não é.

Um sonho que tive:
era um eu em formação.

Na verdade, ainda não era um eu.
Era um processo, uma formação mesmo.
Metamorfose de não sei o quê, que nunca chegava plena à sua completude,
nunca chegava a ser.

Eu não falava e não via.
Meus olhos ainda não haviam tomado proporções para coisa.
Nada fazia sentido e, por isso, eu tudo sentia.

Estranho sentir que nada faz sentido.
Porém eu sentia.

Meus braços com dificuldade já se estendiam e minhas mãos trêmulas pegavam palavras ocupadas de céu com lágrimas de sol,
mas a esperança, crisálida que desabrochava no meu ventre, ela mesma, escapava úmida entre meus dedos.

Ainda não tinha certeza se a formação disforme desse eu era mesmo de mim.
Eu não sabia o que era ser. Eu estava apenas sendo.
Havia medo durante o processo.
Mas medo de quê?
Sendo incompleto, a matéria do eu era incapaz de decifrar ao certo as sensações.
Porém eu sentia.

Sentimento ali era apenas um pretexto inútil para ser.
Já a sensação, esta sim me lançava num universo onde espaço e tempo se confundiam e me faziam ter consciência de que para passar para o próximo estágio da formação era preciso o grito.
O grito do alívio e do desespero.
O grito que liberta.

E como gritar sem ainda haver uma boca formada?
Eu nem sabia ainda o que era a boca.
Mas o grito em mim era muito mais do que uma forte emissão de som.
Era um empurrão, uma energia que me saía inclusive pelos poros.
O apelo me sangrava pelo corpo
e assim eu me libertava,
assim eu ia me tornando.

Posso dizer que toda a minha vida se passou ali, no processo.
Depois veio a morte da semente.

Nessa hora, comecei a não sentir algumas partes do meu corpo em formação quando súbito me deparo com um abismo à minha frente.


Queda.


Acordei num salto e vi que dormia em cima de um dos braços.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Corpo


Palavra é sangue.
É rio de plasma onde quero rubro escrever o livro das santas horas.
O livro das minhas lamentações rasteiras, dos meus dias que inventei e de quando fui costume de cristal pra brincar escuridão na mansidão do coração.

Verso é veia.
Faço aprendizagem de espelho pra nele calcular métrica cínica de criação.
Rima insolente de um sorriso.

Poema é corpo.
Quem sabe eu não me comece soneto.
Talvez uma ode.
Não.
Não me atrevo com representações fúteis da minha existência.
De mim nasce apenas uma imagem onde colho simples a generosidade lúdica do verso livre.

Poesia é ser.
E sou jardim pertencido de poesia?
Não.
Poesia é o que a gente usa pra regar pezinho de verso.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Rascunho


Faz mais de rio que não vejo o sonho.

Quando eu fazia arte na existência, meu pai castigava infância com vara de marmelo.
Meu pai tinha uma voz de trovão.
Hoje tem doçura de arrebol.
Cheira à terra molhada a nostalgia do meu pai.

O segredo de mim é vário. O do meu pai é noite.

Sou poeta, caso perdido.
Desisti de mim quando borboleta escreveu azul na minha mão.
Fui me sendo menos quando me vi de pé na fila de espera do meu sorriso e quando musa me cantou um desapego fúnebre com paramentos de abismo escolhido de girassóis.
Poesia de ônibus faz mais música que vento em árvore.

Palavras me escravizam de dezembro.

sábado, 10 de março de 2012

Caminhada


Passos na linha do presente.
No passado ficou só um mundinho caminhado de retratos, sementes e palavras.
Tem muito mais de mim na travessia desse verso.
Palavras me assumem mais do que cirandas.
Nelas desempenho lírios e respiro presença.
Eu sofro de tanto.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Mesa posta


Mesa posta.

Pratos tristes na mesa para um jantar acostumado de gala e requinte.
Os convidados, preferidos de dinheiro, se entreolham e se sorriem em redor da mesa se cumprimentando num clima protocolar de satisfação enquanto que em suas mentes o que se vê é apenas uma necessidade burguesa de bajulação e puxa-saquismo.
Na sala de jantar uma decoração retrô agradável que dá pra medir com régua, garfos e cortina.
Móveis sérios de madeira antiga, estilo século XIX, que pareciam contar histórias de gerações passadas esquecidas nas gavetas, prateleiras e nos detalhes suspeitos e sinuosos da madeira trabalhada.
Livros raros nas estantes, volumes completos de enciclopédias e clássicos da literatura somente lidos pelo dono da casa.
Tem um ar pedante na gargalhada funesta e esganiçada da anfitriã e dá pra sentir tristeza no sorriso de seu marido, homem de negócios, rico, mas que nunca foi realmente feliz.
Seus 3 filhos já casados moram longe e ele quase nunca vê os netos, únicos que o beijam e abraçam com amor transparente e desinteressado.
Ele sente falta do desinteresse.
Sente falta de quando não era tão rico e conhecia seus verdadeiros amigos, que ficaram no passado, na sua terra de origem.
Hoje ele só tem uns duvidosos amigos do ambiente de trabalho, com suas esposas atrás de suas maquiagens tentando esconder a crueldade do tempo, que é implacável.

– Será que estariam aqui se eu não fosse rico?

Ações da bolsa, mercado financeiro, especulação imobiliária... É o que se fala na mesa, mas o homem, cansado disso e com a cabeça distante desse assunto, só pensa em cochilo na rede, fumar um cigarro, pisar descalço no chão de terra e procurar ninhos nos buracos da casa velha do sítio no interior.

O jantar termina, todos se levantam.
Os anfitriões acompanham os convidados até à porta e se despedem com cumprimentos formais sem ainda se desligarem completamente dos assuntos que permearam quase toda a reunião.
Os carros vão sumindo na estrada, mas da porta permanecem ainda por um tempo os acenos.
Com um olhar de cansaço o casal se retira pra dentro de casa.
A mulher, já sem a maquiagem usada no jantar, dorme com facilidade e rapidez enquanto o homem ainda permanece um tempo sentado na cama folheando as páginas de um Kafka, único que estava ao alcance de sua mão.
O silêncio permanece madrugada adentro quando o homem se levanta e caminha pra fora de casa até os fundos dirigindo-se para um barraco onde guardavam tralhas velhas e ferramentas.

Há quem diga que atrás do sossego passa um rio com águas de desespero que nos leva suaves e tortos pra um oceano de visões e demência.
E o homem, levado por essa correnteza, num turbilhão de calmaria que deságua atrás da casa, lá dentro se tranca.
E rasgando a madrugada, despertando o latir dos cães, um tiro na noite.

sábado, 3 de março de 2012

Azul


Fora de mim o azul!
Me deixe chorar no cinza!

Nas páginas desse livro tem um fogo azul com chamas de existir que penetra e se incorpora no antigamente com versos sem nome de outrora.
Curioso o azul. Ele me encanta com a beleza úmida e pueril de seu som.
Faz música de céu nos olhos da menina e oceano de borboleta nos amores do rapaz.

Azul é cor de sujeito que pisca os olhos pra noite e cochicha estátuas nos ouvidos do vento.
É cor de quem tem voz de anil e se usa de ignorâncias pra compreender a língua dos rios.
Meu verso é azul por natureza. É azul de silêncio e vileza.
Fui amaldiçoado pela música dessa cor.
Eu grito, choro, sequestro fontes de outra cor... Mas no fim sou arrebatado por borboletas ridículas de linguagem e profundas de organismo que sem permissão me afogam em águas irresponsáveis de vigor.

Outro dia vi um abandono azul da altura de uma tarde, tal que um pássaro podia pousar pra fazer ninhos nele.
Dei as costas pra visão e percebi que sou mais um sujeito inútil que experimenta as cores pra ensinar sorriso e jardins.
Já bebi demais dessa nascente que me deságua despedida e lábios.
Chega disso.
Eu quero ser caduco de aquarela.